As Aventuras de Valter Bittencourt
no Paraguai
Valter Bittencourt
Tristeza
no vestiário e reflexão na Churrascaria
Do
enviado especial ao Paraguai, Valter Bittencourt
Logo
que as portas do vestiário se abriram, era nítido
o clima triste pela derrota. Jogadores calados e pensativos, talvez
pensando nas alternativas que poderiam mudar o placar final da
partida. Com o semblante fechado muitos atletas do elenco saíram
direto do chuveiro para o ônibus que os esperava para levá-los
ao hotel. Não havia clima sequer para pedir entrevistas.
E lá estávamos eu, outro jornalista brasileiro e
um repórter da rádio paraguaia, que me perguntava
várias coisas sobre o histórico do clube e dos jogadores.
O
zagueiro Gabriel, Sandro Gaúcho e Diego Padilha representavam
bem em seus rostos a decepção por ter jogado uma
partida em que a equipe foi melhor e perdeu em um lance de bola
parada. Assim como na partida com o Táchira, a bola parada
decidiu a partida. Seria essa uma maldição sobre
o time que carrega nome de Santo?
Junior
Costa, um dos poucos jogadores a falar com a imprensa lamentava
a falta de sorte de sua equipe. "Lamento muito a falta de
sorte. Dominamos a partida, mas infelizmente a bola que não
sobrou para nós durante a partida sobrou para eles, que
tiveram qualidade e fizeram o gol. Mas vamos trabalhar firme pela
classificação, porque temos chances ainda".
O goleiro não desanima e mostra que quer continuar a todo
custo na Libertadores. "Quem não quer jogar uma Libertadores
hoje, ter uma oportunidade como essa. Temos que dar o máximo,
independentemente da nossa posição", disse.
O
atacante Leandrinho foi um dos atletas que mais sentiu a derrota
da equipe. O jogador estava inconformado nos vestiários,
e sem condições de dar uma entrevista, pediu para
que eu falasse com Richarlyson, que estava logo ao seu lado. O
camisa 10 do Santo André vê a derrota desta partida
como uma lição. "Nós aprendemos muito
com a derrota de hoje. Temos mais um jogo e vamos torcer por uma
vitória do Deportivo Táchira, para jogarmos a nossa
classificação contra os venezuelanos dentro de casa".
O jogador sofreu ainda com a violência dos adversários
dentro de campo. Richarlyson tinha nada menos do que três
ataduras estancando sangramentos em seu rosto. Uma da partida
contra o CRB na estréia da série B, e mais dois
que ocorreram na partida contra os paraguaios. "Em alguns
momentos o árbitro deixou a desejar, e por isso sofri um
corte na boca e outro na supercílio e ele não marcou
falta. Mas esse é meu espírito guerreiro, e se tiver
que sair com o rosto todo marcado, a gente sai pra dar o melhor",
falou o jogador.
Sérgio
Soares acredita que os detalhes determinaram a sorte do Santo
André nessa partida. "Hoje era um jogo de detalhes.
Fatalmente quem errasse sofreria o gol e conseqüentemente
perderia o jogo. A equipe se comportou muito bem, mas infelizmente
se teve alguém que errou, fomos nós". O técnico
do Ramalhão usa o exemplo do Fortaleza - que conseguiu
o acesso à série A milagrosamente - como fator motivacional
para o grupo. "A situação do Fortaleza era
toda adversa e eles conseguiram. Temos que continuar acreditando,
pois o nosso trabalho é sério e profissional e espero
que possamos atingir a classificação na última
rodada", disse.
Assim
como pensa o técnico Sérgio Soares, Junior Costa
torce para que o Deportivo Táchira seja o grande vilão
do Palmeiras para manter o Santo André vivo na competição.
"Primeiro temos que torcer para o Táchira. Se eles
vencerem o Palmeiras, estaremos na briga de novo pela classificação.
Também acredito que o Cerro não vá entregar
o jogo para o Palmeiras em São Paulo, até porque
pelo regulamento, o primeiro lugar vale muito, e eles vão
preferir uma equipe mais fraca na seqüência da competição".
conclui o goleiro do Ramalhão.
Na
saída do estádio, enquanto os jogadores partiam
de volta ao Yatch Golf Club, eu e alguns torcedores do Santo André
fomos comer algumas pizzas e discutir tudo o que aconteceu nesta
noite de festa para Assunção. Hipóteses nós
criamos várias. Conclusões, nenhuma. A única
coisa que sabemos é que só o futebol faz nos sentir
do céu ao inferno, da água ao vinho, enfim, milhões
de mutações em uma fração de segundo.
E mesmo com uma derrota, a paixão pelo esporte é
a mesma. Afinal, nenhum jogo é igual ao outro.
Na
manha desta sexta-feira (29), partimos de volta para o Brasil
com uma derrota e muitas lições na bagagem. O Santo
André não depende mais dele, e deve torcer muito
para conseguir a classificação. A equipe enfrentará
o Marília no domingo defendendo o liderança da série
B. Depois, volta os olhos para o jogo entre Táchira e Palmeiras
na Venezuela. Esta partida poderá ser um divisor de águas
desta inédita história internacional do Santo André.
Eu volto mais experiente e com a certeza de que Libertadores é
especial, e só ela proporciona os momentos únicos
que presenciei nestes poucos dias no Paraguai. Uma história
de vida e várias recordações que poderei
contar um dia para meus netos.
Fim!
