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Entrevista
com o Sr. Jairo Aparecido Livólis - Presidente do E. C. Santo
André, em 25/07/2005.
"Entrevistadores":
Carlos, Elias,
Gentil e Gisélia.
PERGUNTAS
sugeridas pelos membros da Torcida Virtual Ramalhonautas.
1) INTRODUÇÃO:
Gostaríamos de saber quando o Sr., nascido em Monte Azul
Paulista, veio para o Grande ABC e como se iniciou sua relação
de amor e devoção para com o clube e a cidade de Santo
André.
Vim para Santo André de Monte Azul Paulista na véspera
do Natal de 1959, me fixei por aqui e passei a construir minha vida
toda na cidade, ainda garotão. A minha relação
com o time começou desde o momento da fundação
do clube em 1967, acompanhando de perto, mas sem fazer parte do
grupo. Acompanhava os jogos no Corintinha (estádio Américo
Guazelli). Fui me envolver de uma forma mais próxima em 1971,
quando o presidente era o Wigand. O clube começou em 1967
e depois deu uma adormecida, teve alguns problemas com a diretoria
e o Wigand assumiu em 1971, criou uma diretoria e fez um grande
esforço com o prefeito da época. A partir daí
comecei a freqüentar de uma forma mais próxima, acompanhava
o time em casa e nos jogos fora, ajudava o Wigand em algumas situações.
Este foi o meu início. Não ocupava nenhum cargo de
diretoria. O meu primeiro cargo de diretoria foi em 1974, quando
Wigand novamente assumiu a presidência em substituição
ao presidente José Amazonas que entregava o cargo e recomendava
o fechamento do Santo André alegando que era inviável.
O Wigand não concordou com o fechamento e falou que essa
bandeira ele segurava e neste momento estava próximo dele
e comecei a fazer parte da diretoria. Formou-se então a diretoria:
Wigand, Lauro Oliani, Hilário Bosisio, Geraldo Novaes e eu
que era diretor de futebol amador. A partir desta data nunca mais
deixei de viver o Santo André. Afastei-me apenas na gestão
do Passarelli, e quando ele pediu demissão, reunimos eu,
Breno Gonçalves, Eduardo Alves Duarte (presidente do conselho),
o irmão do Silvio das lojas Esportiva, e Fausto Polesi que
elegemos como presidente do Santo André.
2)
Tema: FUTEBOL PROFISSIONAL
Como
o Sr. avalia a participação do Santo André
na Libertadores?
Na minha opinião foi uma campanha mediana, mas honrosa, diria
que terminamos honrosamente. Diria que pela primeira vez o Santo
André participou de um torneio internacional e não
classificamos para uma fase seguinte por um detalhe daquele primeiro
jogo com o Táchira. Ali o Ferreira não foi feliz,
perdemos aquele jogo e perdemos a possibilidade de prosseguir um
pouco mais. Mesmo assim acho que a nossa estréia na Libertadores
foi honrosa, porque jogar com o Cerro lá em Assuncion não
é fácil e por pouco não conseguimos o empate.
Jogamos aqui muito bem contra o Cerro e poderíamos ter vencido,
não fosse o Richarlyson ter feito a bobagem que fez. Empatamos
com Palmeiras no Parque Antártica e ganhamos o jogo aqui,
e encerramos a participação goleando o Deportivo por
6x0, que foi nossa primeira vitória oficial contra um clube
estrangeiro em competição internacional. Embora eu
sonhava ir um pouco mais adiante, defino que não tivemos
uma má participação.
Entendemos que o campeonato da Série B é tão
ou mais importante para o clube do que a Libertadores. O Sr. partilha
desse entendimento?
A Libertadores era um sonho, a série B é um projeto.
O Santo André na série A do Brasileiro, vai adquirir
um status que é definitivo e vamos para um patamar de primeiríssima
linha do futebol brasileiro e com total condição de
se sustentar na série A. Vai se abrir portas, como as de
receitas: televisão, patrocínio, venda de atletas.
Hoje vender um jogador numa série B é bem diferente
do que vender estando na série principal.
O Santo André está com problemas de composição
de elenco, pois vários jogadores saíram após
a Libertadores e o time caiu de rendimento. O prazo de inscrição
de novos atletas na Série B está se esgotando. Como
está a busca de reforços? Está havendo dificuldade
para encontrar, no mercado, jogadores de qualidade?
Bons reforços virão. Atualmente se tem muito jogador
disponível no mercado, mas de desempenho duvidoso. Precipitamos
quando trouxemos recentemente uns três reforços que
coloco nesta categoria dos duvidosos, nos obrigando a repassá-los.
Agora bons jogadores realmente está difícil, até
porque os bons jogadores não querem vir para a série
B, entre ganhar uns R$10.000,00 aqui e uns R$10.000,00 no Figueirense
ele prefere lá, por ser da divisão principal. Isto
realmente dificulta as contratações.
Financeiramente, o futebol profissional do clube está equilibrado?
Sim, totalmente equilibrado.
Caso o Santo André consiga o acesso para a Série A,
o que todos esperamos, o clube terá respaldo financeiro e
técnico para manter-se nela?
As nossas possibilidades realmente serão grandes e tudo gira
em torno das receitas. Todo meu plano no clube é a partir
de um planejamento de receitas e a partir daí definimos o
que faremos com o futebol e ao final de cada ano temos rigorosamente
despesas e receitas em equilíbrio. Não fazemos aventuras,
não contratamos jogadores acreditando que a torcida irá
pagar, que ganhando o campeonato a coisa ficará mais fácil,
e isso acontece com a maioria. As receitas para participação
na série B eram da ordem de R$ 400.000,00, pegando todos
os 22 clubes. Na última quinta feira nos reunimos no Rio
de Janeiro e depusemos o presidente da FBA e nomeamos um novo presidente.
A intenção é sanear mas a frustração
de receitas na série B é definitiva. A receita líquida
da televisão que deveria ser repassada soma R$ 450.000,00,
recebemos R$ 50.000,00 em abril, e estes R$ 400.000,00 não
virão, devido uma má condução do processo,
então esta seria a receita da TV, R$ 450.000,00. Já
na série A, a menor cota de televisão, portanto uma
cota que receberíamos se lá estivéssemos é
da ordem de R$3.600.000,00, simplesmente R$ 3.150.000,00 a mais
de receita, sem contar uma melhor negociação com patrocinadores,
publicidade, rendas dos jogos. Atualmente nossa arrecadação
em função da bilheteria dos jogos é zero, pois
apenas se paga, porteiro, bilheteiro, as taxas de federação,
arbitragem, anti-doping e em algumas vezes fica-se no vermelho.
Numa série A enfrentando clubes de maior expressão
com certeza aumenta o público. Pode até não
se ter 12.000 pagantes em todos os jogos mas consegue-se levar no
mínimo na média umas 5.000 ou 6. 000 pessoas.
Como o Sr. avalia o trabalho do treinador Sérgio Soares,
que é muito querido pela torcida?
Esta fazendo um excelente trabalho, possui um potencial de futuro
bastante promissor, o que possui contra é o noviciado na
profissão, treinador de futebol é uma coisa meio complicada,
as coisas nem sempre dão certo. Com certeza ele ainda tem
muito para amadurecer. É o nosso treinador e vamos com ele
até o fim, confiamos muito nele, vamos ajudar no que for
possível, principalmente a superar dificuldades iguais ou
maiores a esta que se passou na última semana, tirando jogador,
mexendo na comissão técnica, trazendo jogadores, ou
seja, colaboraremos no que for possível para que ele tenha
uma boa condução do seu trabalho.
A maioria da torcida Ramalhonautas entende que ele teve importância
fundamental na conquista da Copa do Brasil.
Realmente ele teve, mas o grande mentor foi o Chamusca. Em toda
minha vivência no futebol posso afirmar que ele é um
dos que mais bem enxerga o futebol, sabe fazer um boa leitura do
futebol, realmente neste quesito é admirável.
Então a expulsão do Chamusca na Copa do Brasil
foi em boa hora, tendo que acompanhar os jogos com uma visão
de fora.
Foi providencial, lá de cima ele tinha uma boa visão
e sabia interpretá-la. O Chamusca fala num tom só,
fala baixo com jogadores, já o Sérgio tem mais aquela
coisa de jogador, fala mais alto, cobra. O Chamusca lá em
cima estudando o jogo e o Sérgio no lado do campo agindo
diretamente com os jogadores realmente formaram uma dupla imbatível
e foi esta situação que vimos.
Por que o Santo André optou por não disputar a Copa
FPF?
Por dois motivos. Primeiro porque tem um custo, e este com certeza
teríamos que tirar do previsto para a série B, não
sendo prudente. Segundo porque já estamos classificados para
a Copa Brasil do próximo ano e não entraríamos
com aquele objetivo, apenas pelo Troféu. Se não tivéssemos
garantido a vaga para o próximo ano com certeza iríamos
disputar. Esta decisão foi tomada após a vitória
contra a Ponte, não vamos dispersar nem gastar os poucos
recursos disponíveis e nos concentrar na série B e
Libertadores.
Como ficou o caso do Richarlyson?
Nós negociamos com o São Paulo, hoje mesmo tive uma
reunião com o Juvenal Juvêncio e está tudo acertado,
só faltam uns detalhes. O São Paulo fica com 60% dos
direitos do jogador, o Santo André fica com 40% e uma quantia
em dinheiro, e virá um jogador para nós por empréstimo
até o final da Copa do Brasil.
Qual é a atual situação do jogador Denni?
O Denni foi vendido, a sua situação do passe era 50%
do Santo André e 50% da Hability. Ele e o Rodrigo Sá
quando vieram em 2002 pertenciam a Hability, então fizemos
uma parceria deles ficarem no Ramalhão e ficamos com a metade
do passe dos dois. Agora a Hability fez uma proposta de compra dos
50% da parte do Santo André. Fizemos o acordo, o Denni foi
mas não acertou com o tal time, acabou voltando, e como a
Hability não pagou a última parcela do acordo, pegamos
o jogador de volta. Aí eles mais que depressa pagaram a última
parcela e o Denni foi liberado. A informação que tenho
é que ele foi para um time do México.
3)
Tema: CATEGORIAS DE BASE
Consideramos
o Projeto Jovem Santo André como de absoluta importância
para o futebol profissional do clube. A Lei Pelé e os casos
recentes de jogadores como Nunes, Fábio Reis e Richarlyson
têm alterado a motivação do clube em continuar
com o projeto?
De modo algum. Mesmo com os problemas enfrentados com alguns jogadores
oriundos das categorias de base, não estamos desestimulados
com o projeto, continuamos investindo da mesma forma, revelando
jogadores e colocando na equipe principal. Ficamos aborrecidos,
mas ao mesmo tempo aumentamos os cuidados para não deixar
nenhuma brecha, nenhum equívoco para que os sujeitos se apóiem
e vão para a justiça a fim de conseguir liberação
do passe. Contratamos escritórios de advocacia em Santo André
e em São Paulo para cuidar desta área. Também
contratamos um auditor para ficar aqui no clube cuidando desta área,
analisando em tempo integral tudo relacionado aos jogadores das
divisões de base. Estamos gastando mais dinheiro para prevenir
qualquer tentativa de um jogador ser levado embora em condições
anormais. Isto não nos dá 100% de segurança,
mas ameniza. Tivemos o caso do Renato dos juniores, que alegou que
a assinatura do pai dele no contrato era falsa. Como a juíza
deu tutela antecipada ele conseguiu negociar com um clube da série
A. Há uma semana, saiu a sentença e nós recuperamos
o direito, mas como ele já se encontra ambientado lá
no clube não queremos criar problema, então vamos
negociar. O Nunes como tinha comportamento problemático não
fizemos questão de brigar por ele, tanto que está
encostado no Coritiba e criando problemas. Esse tipo de encrenca
nós não queremos. Com o Tássio fizemos diferente,
deixamos o contrato dele acabar e não renovamos. O Fábio
Reis se queimou à toa, tinha mais dez meses de contrato conosco,
era só esperar e sair com a porta aberta, mas se precipitou
e o São Caetano para não criar problemas nos repassou
R$100.000,00, ele retirou o processo da justiça e então
o liberamos. Também não o queremos de volta no clube.
Como funciona a seleção de atletas para as categorias
de base? A parceria com o projeto Pirelli Inter Campus ainda existe?
Como o Projeto Jovem foi criado em 1997, a partir daí estreitamos
e criamos relação com vários olheiros do futebol
por este país todo. Esta rede de olheiros, sempre tem um
que liga para o Reinaldo e indica algum jogador. Ele vem, faz um
estágio, e de acordo com seu desempenho fica ou volta. Assim
descobrimos os jogadores. O projeto com a Pirelli, foi apenas uma
parceria de cunho social, apenas uma forma de colaborar com os garotos
de uma faixa de renda desfavorecida. Não tinha como objetivo
de identificar jogadores, revelações. Foi apenas um
projeto social.
A torcida Ramalhina tem um carinho especial com os jogadores das
categorias de base, pois sabe que aí está uma boa
receita para o sucesso do profissional. O que podemos esperar para
os próximos campeonatos?
Pode se esperar algo bom, porque a geração que está
aí é de boa qualidade. Estamos descendo do time principal
cinco jogadores com idade de juniores: Rafael, Galliardo, Makelelê,
Everton e o André Luis. O André deve continuar no
profissional em função da nossa deficiência
com a lateral esquerda. A geração é de primeiríssima
qualidade, mas não basta, precisamos vencer competições.
A nossa expectativa é de um time semelhante ao campeão
de 2003.
4)
Tema: PÚBLICO/ESTÁDIO
Mesmo
com a participação do Santo André em torneios
importantes, o público nos jogos do time tem sido pequeno.
Sem grandes públicos será bem mais difícil
chegar a Série A e manter-se nela. Consideramos a divulgação
das partidas extremamente deficiente. O que o clube pretende fazer
para motivar o andreense a ir ao estádio? Há algum
plano nesse sentido?
Essa é uma resposta muito difícil. Eu e a diretoria
toda já pensamos muito neste assunto, os vários caminhos
ou possibilidades, não existe nada bem claro. Não
existe um plano que possamos executar e levar ao sucesso, vamos
fazer assim e assim que o público aparece. Para começar,
nós não temos mídia. Numa cidade como Ribeirão
Preto há 6 rádios e 2 TVs falando dos times, e aqui
nós só temos um jornal, até em função
da proximidade com São Paulo, então, a mídia
toda é de São Paulo e ficamos sem uma forma de comunicação,
dependendo apenas do jornal ou de uma propaganda um tanto quanto
mambembe como faixas. Fica difícil acessar o público.
Todas as vezes que colocamos este desafio para as pessoas não
obtemos opiniões que venham a solucionar o problema da falta
de público. As ações tradicionais, como ir
às escolas levar as crianças ao estádio, fazer
uma divulgação maior, nós já tentamos.
Durante o campeonato paulista contratamos uma empresa e fomos às
escolas onde levávamos as crianças e um acompanhante
com ingresso gratuito. Não deu resultado. Tenho a seguinte
visão: primeiro, temos que ter um time de qualidade e vencedor,
sem isso não se leva ninguém ao estádio. Por
isso fazemos questão em ter um time vencedor e estamos conseguindo
desde 2003 e levamos em torno de 2.000 torcedores, até então
levávamos metade deste público. Percebemos então
este aumento e reafirmo que temos de prosseguir em uma trajetória
ganhadora. Com certeza quando entrarmos em uma fase mais nobre deste
campeonato o interesse do torcedor na cidade aumentará. E
quando estivermos na Série A, jogando com os times grandes,
com uma divulgação maior na mídia, com certeza
teremos grandes públicos. Se nós tivéssemos
hoje a mesma divulgação que tem o São Caetano,
certamente teríamos o dobro de público que eles levam.
Agora, ainda não temos e nem encontramos nenhuma fórmula
para estimular o torcedor a comparecer. Se alguém possuir
alguma idéia viável, estamos abertos a sugestões
e estudos para viabilizá-las.
Os patrocinadores do time cobram alguma providência com
relação ao público diminuto nos jogos?
Não, não cobram nada nesse sentido.
As condições do Estádio Bruno Daniel, nossa
casa, não são as melhores. Há desconforto para
o público e falta de vagas para estacionamento. Temos deixado
de disputar finais em casa porque o estádio não comporta
grandes decisões, e para a Libertadores foi necessária
uma ampliação provisória para que pudéssemos
mandar jogos aqui. Com a ascensão do Santo André no
cenário brasileiro, o problema tende a agravar-se. O clube
tem feito ingerências junto à Municipalidade para que
o estádio receba uma ampliação definitiva?
O Prefeito prometeu que na seqüência vai executar um
projeto de ampliação, elevando a capacidade para 20.000
pessoas. Promessa feita no começo deste ano. Não posso
afirmar nada referente ao novo formato, esta situação
vai depender da Prefeitura e dos arquitetos que irão desenvolver
o projeto. A Prefeitura já está trabalhando no sentido
de disponibilizar recursos para execução da obra obedecendo
toda uma formalidade inerente ao setor público e acredito
que será uma obra para 2006. Fora disso, nós enquanto
E.C. Santo André, não dispomos de nenhuma possibilidade
de acelerar o processo. Vejam bem, a Copa do Brasil do ano passado
exigiu um estádio com capacidade acima de 15.000 para jogar
as finais, neste ano já não se exigiu.
Não existia o projeto de instalar um placar eletrônico
no Bruno Daniel?
O projeto do novo placar eletrônico encontra-se adiantado
e deverá ser implantado a curto prazo, diria num prazo bem
rápido e se trata de um belíssimo placar.
Em sua opinião, as instalações internas do
estádio, tanto para as equipes como para arbitragem, imprensa
e público, são adequadas?
Penso que sim, não diria ideais mas são adequadas.
Torcedores já denunciaram que ao pagarem ingresso inteiro
na bilheteria foi-lhes fornecida meia entrada. A direção
do clube tomou conhecimento desse fato?
Isso é novidade para mim, eu não sabia disso. Esta
situação é crítica e de roubo. A questão
passa a ser de limpar a área e trocar toda a equipe das bilheterias.
Nos jogos temos constatado a presença de cambistas, inclusive
em jogos de menor destaque. Até já aconteceu de torcedor
pegar o cambista pelo pescoço e levar até o policiamento,
mas o problema continua.
Vou apurar isso. Mas pelo que vocês me relatam acho que não
são cambistas, porque ninguém pega ingresso na bilheteria
a 5 reais e vende na rua pelo mesmo preço, se fazem isso
é porque estão pegando os ingressos de graça.
Garanto que esses ingressos não são da bilheteria,
devem vir de algum outro lugar, e isso aí tem que ser investigado.
Existe evasão de renda no Bruno Daniel?
Não, de jeito nenhum. Nós temos um sistema de controle
dos ingressos que funciona muito bem. Recebemos a carga, depois
de encerrada a venda contamos tudo o que sobrou, fazemos a diferença
e conferimos com o registrado nas catracas, e bate certinho. Se
vocês quiserem, podem chegar mais cedo em um dos jogos e acompanhar
todo o procedimento. Então, se o borderô dá
1.500 ingressos vendidos, é porque há mesmo 1.500
pessoas no estádio. Tem alguns pontos fracos, como aquele
portão de entrada que sempre alguém acaba pulando
por ali, mas evasão não há. Se você olhar
o público estando no meio dele, nas cadeiras, a impressão
é que está cheio, mas olhando do gramado a visão
é totalmente diferente, você vê os claros e percebe
que não há tanta gente.
O gramado do Bruno Daniel sempre foi um problema. Com a reforma
feita no final do ano passado, o gramado ficou excelente e julgávamos
que o problema fora resolvido definitivamente, mas agora vemos que
as condições já não são as mesmas.
O clube tem atuado junto à Prefeitura para que haja um tratamento
e recuperação do gramado?
Com relação ao gramado a Prefeitura tem feito um esforço
muito grande. Eles contrataram uma empresa que fez uma nova implantação
do gramado, mudanças no sistema de drenagem bem como para
cuidar de sua manutenção. O problema atual não
se dá em função a quantidade de jogos, até
porque só utilizamos para jogos e raras vezes é utilizado
para treino. O problema maior é decorrente das condições
climáticas que enfrentamos no momento. Atualmente estão
fazendo o plantio de sementes próprias para inverno para
que o gramado continue em boas condições. Estas sementes
irão germinar matando a grama atual, recuperando o gramado,
com melhor resistência para esta fase do ano e quando chegar
a primavera ela morre e ressurge a antiga. Vamos esperar para ver
o resultado. A Prefeitura tem se esforçado e muito neste
assunto, diria que estão trabalhando no limite do ideal.
No passado a torcida tinha um melhor tratamento por parte do
policiamento nos jogos, pois a corporação era de Santo
André. Hoje, o torcedor ramalhino é maltratado em
sua própria casa, principalmente nos jogos contra os ditos
times "grandes" de São Paulo. Parece-nos que os
policiais que prestam serviços no estádio em dias
de jogos não são da região.
Esta queixa eu também tenho, a diretoria do clube também
não tem um bom tratamento. Temos muita dificuldade de relacionamento
com o policiamento, por inúmeras vezes me reuni com o comando
da PM e que é daqui da cidade, não é de fora
não. Eles fazem várias exigências para facilitar
o trabalho deles e nós procuramos cumprir, mas, na hora do
jogo a coisa fica difícil. Um dos problemas é referente
a abertura dos portões que dependem da autorização
da PM e as vezes eles só liberam minutos antes de começar
o jogo, criando insatisfação ao torcedor. Falta um
tratamento gentil com o torcedor e com a diretoria. Mesmo com as
várias reuniões, não consegui reverter este
quadro, realmente não sei o que poderemos fazer.
5)
Tema: MARKETING
O
torcedor do Santo André tem bom poder aquisitivo e seria
um ótimo consumidor de produtos ligados ao time, como camisetas,
agasalhos, bonés, flâmulas, brindes, mascotes, kit
infantil e assim por diante. Temos detectado um grande interesse
nesse sentido. Mas o comércio não oferece tais produtos.
Por que o clube não explora melhor a marca "Ramalhão"
e a identificação desta com o torcedor, para obter
uma fonte de renda extra?
Quem explora o material principal, como: camisas, agasalhos, roupas
de treino é a marca que possui contrato com o clube, Diadora.
Com relação aos outros materiais, nenhum lojista quer
comprar para vender depois para o torcedor. A experiência
que tivemos em ocasiões anteriores é que este tipo
de produto interessa apenas a meia dúzia de pessoas. Quando
mandamos fazer um lote de flâmulas, elas ficaram encalhadas.
De qualquer forma podemos melhorar a coisa e de repente colocar
na lojinha do clube e explorarmos melhor estes produtos. Vou providenciar,
mesmo que o clube venha a arcar com um pequeno prejuízo,
mas o torcedor terá condição de adquirir este
tipo de produto.
Há possibilidade de venda de carnês para os jogos do
Santo André?
Não, isso não funciona. Também já fizemos
no passado e não tivemos resultado, não era um carnê
mas funcionava como tal. Era um cartão chamado CIS que dava
direito a assistir aos jogos de determinados campeonatos. Conseguimos
vender no máximo uns cinqüenta. Não compensa.
Na cultura brasileira não funciona. Pouquíssimo clube
faz. Devido a estas experiências não nos animamos a
fazê-lo novamente.
O clube tem algum projeto para convencer o torcedor a tornar-se
sócio?
O que existe é o contrário, um projeto em levar o
associado a comparecer nos jogos do time. Entendo que o torcedor
que realmente gosta do time tem por obrigação se associar
ao clube, embora nem todos possuem condições financeiras
de se associar, mas os que possuem deveriam ser sócios.
A CBF disponibiliza o direito do clube comercializar umas três
placas de propaganda no estádio. No último jogo no
estádio de São Januário comprovamos que o Vasco
explora uma placa chamando o torcedor a se associar. Não
podemos usar esta prática?
Boa sugestão, vamos analisar o assunto.
Há possibilidade de o sócio pagar meio ingresso nos
jogos?
Não, porque se cobrar meia-entrada do associado, portanto
R$ 5,00, teríamos de cobrar R$ 2,50 de estudantes, aposentados
e demais. No fechamento não seria compensatório. Precisamos
buscar o equilíbrio.
6)
Tema: ASSUNTOS DIVERSOS
Como anda o CT? Ainda não saiu do papel ou já há
alguma previsão para sua inauguração?
No caso do CT existe um problema burocrático. Como é
uma obra em região de reserva ambiental, de mananciais, o
projeto de terraplenagem e construção tem que ser
aprovado pelos órgãos ambientais. Fizemos o projeto,
o SEMASA aprovou e encaminhou para o órgão estadual,
e desde então está parado e não há o
que o faça andar. Assim que for liberado, faremos de imediato
três campos de futebol, que demandam baixos custos e depois
o restante do projeto.
Quem financia quem: o clube banca o futebol, ou vice-versa, ou ambos
são financeiramente independentes?
Ao longo do tempo o futebol não tinha receita e depois da
concretização do poliesportivo, do clube propriamente,
este ajudava a bancar o time profissional. Hoje os dois caminham
independentes, mas conforme a necessidade pode-se aportar recursos
de um para o outro. Por exemplo, quando da venda do passe do Adauto
construímos a piscina aquecida. Atualmente as receitas são
equilibradas e praticamente independentes. Um fecha o outro.
Qual é a atual situação da empresa Santo André
Empreendimentos, e da conversão do Santo André em
clube empresa?
A empresa nunca existiu. Trata-se de um assunto novo, logo, preferimos
esperar que outros clubes vivessem esta experiência para vermos
o resultado, pois se trata de uma situação nova e
complexa. Na condição de clube empresa, perde-se alguns
benefícios importantes como os fiscais. Hoje o Santo André
não precisa pagar imposto de renda por se tratar de uma empresa
sem fins lucrativos, os custos fiscais são pequenos. Transformando
em clube empresa o objetivo do negócio muda, pois passa a
visar lucro e de imediato se paga imposto de renda. Estamos aguardando
a situação ficar mais clara, pois muitos clubes se
transformaram em empresa e se arrependeram.
Como o Sr. vê o surgimento de uma nova equipe profissional
na região?
Para a região é ótimo surgir novas forças
e despertar a rivalidade. Isto leva o torcedor ao estádio.
Existe essa rivalidade histórica no futebol, entre Santo
André e São Bernardo, desde os tempos do Aliança,
e a volta dessa rivalidade será importante para o futebol
da região. É só comprovar o público
no clássico do ABC no último campeonato Paulista.
Em sua avaliação, o empresariado da cidade tem mostrado
entusiasmo e espírito de colaboração com o
Santo André, que há tempos vem sendo a única
menção positiva sobre a cidade na mídia?
O que eu sinto nos empresários da cidade é o orgulho
andreense, a satisfação de ver o time conquistar um
título importante como a Copa do Brasil, mas o despertar
da cidadania, festejar juntos, ficou no sentimento. A Coop, por
exemplo, tem a sua contrapartida. Nenhum empresário faz favor.
Empresários de grande porte foram procurados mas não
mostraram interesse. Eles recebem a gente bem, com cafezinho, mas
investimento nem pensar. O empresariado não demonstra o que
o Santo André precisa para continuar uma carreira vencedora.
Depois cada um vai seguir a sua vida, cuidar do seu negócio.
O empresário é frio, colabora quando a situação
lhe ofereça retorno. A idéia que as pessoas possam
colaborar com o time só funciona ocasionalmente. No passado
as pessoas já colaboraram até financeiramente. É
circunstancial, não existe uma colaboração
duradoura. Um contrato mais importante é difícil em
relação ao retorno que o Santo André dá.
Estou disposto a dar espaço para quem quiser e tiver uma
boa idéia e vou junto para procurar patrocínio. Parece
ser muito fácil, mas não é. Faça um
levantamento dos times da série B e veja quem patrocina estes
clubes. Não tenho dúvida que os nossos patrocínios
nos pagam muito mais que qualquer outro clube.
O Santo André possui Ouvidoria?
Não, só temos ouvidoria nas partidas no Bruno Daniel,
como exige o Estatuto do Torcedor.
Quando serão as eleições para a Presidência
do Santo André, e como funciona o processo?
A eleição será em dezembro de 2006. Quem elege
o presidente, vice-presidente e presidente dos conselhos é
o Conselho Deliberativo. O conselho é composto por 100 conselheiros,
sendo 75 vitalícios, que são os mais antigos, com
ligação histórica com o clube, porque o Santo
André nasceu pelo futebol, e esses sócios antigos
se dedicaram muito a isso, para manter o futebol do clube. Os outros
25 conselheiros são renováveis e são eleitos
pela assembléia geral dos sócios. Para se candidatar
a Presidente é preciso ser conselheiro vitalício.
É assim e sempre foi, para garantir que não vai aparecer
algum aventureiro, algum político e se apoderar do clube.
O Presidente sempre será alguém com uma história
dentro do clube.
7)
CONCLUSÃO
Agradecemos
a sua gentileza em nos conceder esta entrevista, e gostaríamos
que o Sr. deixasse seu recado para a torcida ramalhina.
Nós temos uma visão de futuro para o Santo André,
apoiada em três coisas: cuidado extremo ao planejar, um grande
esforço da equipe de trabalho em resolver os problemas e
união total das pessoas e entidades do clube. Somando-se
ao terceiro quesito a união da torcida, a nossa chance de
sucesso será grande. Solicito as pessoas envolvidas e torcedores
estarem juntos com o clube para a construção de um
time vencedor, principalmente nas horas ruins, com a torcida chamando
o time sem perder o espírito e empurrando sempre o time para
a frente.
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Ao
final da entrevista, entregamos ao Jairo uma camisa comemorativa
dos Ramalhonautas e o Manifesto Ramalhonauta, e o convidamos
a acompanhar o nosso trabalho.
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