Confidencial - Ao mestre com carinho

Nelson Cilo
Do Diário do Grande ABC


Barcelona, 5 de julho de 1982. Diriam que tudo não passou de uma tremenda pegadinha. No entanto, o placar do Sarriá não mentia aos torcedores enrolados naquelas bandeiras naturalmente pintadas em verde-amarelo: Itália 3 x 2 Brasil. Os três gols do carrasco Paolo Rossi, implacável na cara do goleiro Valdir Peres, rasgaram o script de Telê Santana, mas não mancharam a história do mestre. Não, isso nunca. Seria impossível estragar o filme. Recuem a fita. O quadrado mágico de Telê encantava o planeta, não é? Só não resistiu a uma única fatalidade. Paciência. Os torcedores derrotados estavam rigorosamente calados nas arquibancadas. Silenciaram na Paulista ou no Pelourinho. Em todos os cantos deste país. De Norte a Sul. Os vencedores, farristas e zombadores, bailaram na Rambla, o ponto mais efervescente da capital catalã. Um barulhento buzinaço à moda italiana.

As cenas ainda estão na minha cabeça. São as imagens que carrego daquele filme protagonizado pelo incomparável Telê. No momento em que o árbitro israelense Abraham Klein encerrou o capítulo mais triste do Mundial da Espanha, era como se a nossa equipe do Estadão - Luiz Carlos Ramos (editor), Fausto Silva, Antero Greco, Edson Luiz dos Santos e eu - não desvendasse um incompreensível pesadelo. Olhávamos para o vazio. Em 15 minutos, caiu a ficha. Tentamos resgatar a realidade. Lá fora, o trânsito não andava. Então, caminhamos das tribunas ao Centro de Imprensa instalado pela Fifa. Vocês dirão que isso não tem importância no contexto geral das tragédias. É verdade.

Quatro anos mais tarde, reencontro Telê na Copa do México-86. Corrijo: um pouco antes, na Toca da Raposa, em Belo Horizonte, comecei a cobrir a fase preparatória para o Mundial. Minto: vi-o em Goiânia - se não me engano - durante um amistoso diante do Paraguai no finzinho das eliminatórias. Naquele momento, o grande Telê - um sujeito ranzinza mas autêntico - havia declarado uma das habituais greves de silêncio pessoal contra os jornalistas.

A imprensa parecia incomodá-lo. Comparativamente, lembraria um personagem tipo Emerson Leão. A diferença é que o mestre não discriminava gregos nem troianos. Não concedia privilégios. Entrevista exclusiva? Esqueça. Uma emissora de rádio lá dos confins merecia o mesmo tratamento conferido à Globo. Isso te tranqüilizava depois de uma coletiva. Seria impossível tomar um furo. Detalhe: um simples esbarrão de microfone ou gravador na boca era suficiente para que o pavio queimasse na hora. Também detestava que se postassem na retaguarda (exibicionismo atrás das câmeras) durante as entrevistas.

Não sei se vocês já sabiam, mas Roberto Avallone (na época, colunista e pauteiro do Jornal da Tarde) é quem o apelidou de mestre. Um dia, o atual apresentador e comentarista da Band - não sei por quê - ouviu uma advertência de Telê. Aquilo chateou demais o meu amigo. Assumo: nunca fui de bajulá-lo, mas o respeitava. Não nego que contestava o comportamento ditador de uma figura polêmica, sim, mas que se impunha pelo caráter acima de qualquer suspeita. Telê gostava de ensinar os maiores talentos como se estes fossem iniciantes e aprendizes. Paulo Roberto Falcão, Toninho Cerezzo, Zico e Sócrates observavam atentamente. E o mestre, paciente ou irritadiço, mostrava como é que ele queria.

Nosso personagem gritava, gesticulava, insistia. E mandava repetir as faltas, os cruzamentos, os escanteios, aquele um-dois nas verticais, tudo. Descobria e retocava os anônimos garotos que de repente saíam do anonimato para vestir a camisa dos maiores clubes ou da Seleção Brasileira. Como Luizinho (Atlético-MG) e Valdo (Grêmio). Chato e teimoso? Depende. Nada mais o agradava do que falar de temas aparentemente irrelevantes. Dos passarinhos ou da criação de animais num sítio caprichosamente cultivado lá em Minas.

No intervalo de um treino do São Paulo, no começo do anos 70, perguntei àquele sisudo comandante. "Quem é que batia desse jeito na bola, Telê?", perguntei - de propósito - só para descontrair o clima. Referia-me ao perfil de um ágil ponta que, ao trocar o Fluminense pelo Guarani, seguiu uma bela trajetória no interior paulista. Se o lateral o pressionasse na linha-de-fundo, Telê, de costas, punha o pé debaixo da bola, girava o corpo e a lançava para um companheiro bem colocado. Ao ouvir o meu relato, o mestre ria às gargalhadas. "Ah, é, você viu isso?", respondia, todo orgulhoso. "No campo da Ferroviária de Assis, Telê. O Guarani tinha um timaço. O Eraldo, o Tião Macalé, você na direita...", testemunhei.

Não adianta esconder: Telê, milionário como poucos, era um autêntico pão-duro. Não gastava de bobeira. Um dia, convidou diversos repórteres para um café na mesa de um bar. O funcionário trouxe a nota. Telê pediu licença para ir ao banheiro, saiu de fininho e só voltou depois que a conta estava paga. Telê cuidava dos jogadores mais novos como estes fossem verdadeiros filhos. Se os meninos assinassem o primeiro contrato e aparecessem de carro zero, nem poderiam participar dos treinamentos. Mandava-os para casa e só reapareciam se não tivessem mais o veículo. Aconselhava-os a comprar um imóvel. Em seguida, poderiam pensar nos outros investimentos tidos como supérfluos. Palavra de honra, leitores: se fosse possível, eu não pararia mais de retocar a biografia de um homem que soube andar em linha reta. Que redesenhou o mapa do futebol. Que acendeu as luzes da lisura e da não violência. Que agora voa para o infinito, mas talvez não saiba que virou imortal. Só mais uma coisa, Telê: a tristeza é nossa, o céu é teu. Boa viagem, mestre.

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Nelson Cilo é jornalista.



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